ESQUADRIAS DE ALUMÍNIO JÁ ATENDEM NOVA NORMA DE DESEMPENHO ACÚSTICO

Direito ao silêncio

Referência numérica para o desempenho acústico da fachada é a novidade da norma revisada. Fabricantes de esquadrias de alumínio já trazem soluções.

Buzinadas, latidos, apitos dos agentes de trânsito, máquinas de elevadores e até o toque- toque do salto da vizinha já participam da rotina dos moradores das grandes cidades brasileiras. Esses, no entanto, não estão conformados com tanto barulho e têm acionado as construtoras na Justiça. Esse movimento, de conscientização do direito ao conforto acústico, ganha novos parâmetros agora, com a entrada em vigor da norma revisada de desempenho para edificações.

A regulamentação, a NBR 15.575, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), traz indicadores de desempenho do imóvel, ao longo da vida útil. A questão acústica é um dos destaques na nova versão, aspecto que refere-se ao som que cruza paredes, pisos ou mesmo a fachada.

No âmbito do alumínio, o impacto da norma ecoa sobre as esquadrias, que participam do desempenho das fachadas. “Pela primeira vez, o Brasil dispõe de referência numéricas para a retenção de ruídos, o que permite classificar o desempenho acústico em mínimo, intermediário ou superior”, conta o engenheiro Marcelo de Godoy, consultor da Modal Acústica.

Isso significa que, para não destoar do conjunto da obra, um apartamento anunciado como sendo de alto padrão deve ter uma fachada de nível superior, que retém, pelo menos, 30 decibéis de ruídos. “Eu já vi empreendimento custar R$ 8 milhões com esquadrias de qualidade inferior. Isso agora está com os dias contados”, diz Edison Moraes, conselheiro da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (ProAcústica).

Os números exigidos na norma para cada faixa de desempenho ainda são inferiores aos praticados em outros países, em mercados mais maduros. “Estamos começando a introduzir o compromisso com a acústica no ciclo construtivo brasileiro. Traduzir isso em valores numéricos já é um avanço e que pode ser atendido pelo mercado”, explica Godoy.

Para já, a mudança está na maneira de projetar. Segundo a engenheira Fabíola Beltrame, consultora técnica da Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio (Afeal), uma nova postura do mercado já tem sido percebida: “Os escritórios de projetos, as construtoras e os fabricantes de materiais já começam a se preocupar com uma nova forma de especificação. Cada vez mais, a construtora exigirá níveis superiores”.

“As construtoras já têm contratado consultores que explicam o que muda no projeto com o foco em desempenho acústico”, diz José Carlos Noronha, coordenador do comitê de mercado de construção civil da Associação Brasileira do Alumínio (Abal).

Para Noronha, a norma vem impulsionar a já atual tendência: “No passado, clientes insatisfeitos chegaram a interromper o pagamento à Caixa Econômica Federal. Desde então, os órgãos de financiamento têm exigido qualidade pelo PBPQ-H com rigor. E a indústria da construção amadureceu muito”, diz, numa referência ao Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat.

Alumínio 
Assim como essa norma deve ser atendida pelas construtoras, a NBR 10.821 – parte 4, a ser publicada, trarå referências de desempenho acústico para as fabricantes de esquadrias. Como reforçam o mesmo discurso, espera-se que, juntas, as normas fomentem melhorias.

Segundo Noronha, os produtos em alumínio dos sistemistas já são uma solução para os empreendimentos atenderem à norma. Ele afirma que o modelo de esquadria mais vendido de cada um dos sistemistas (fabricantes de sistemas de esquadrias de alumínio) já corresponde aos requisitos.

Noronha, da Abal, afirma que o produto mais vendido de cada um dos sistemistas já atende à nova norma, no nível mínimo: “O mercado pode estar seguro”, diz.

Divulgação Alcoa
Sistema Contact, da Alcoa, pode oferecer até 31db de isolamento acústico em janela de correr com vidro 10 mm

“No ano passado, fizemos testes no IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas] e comprovamos que os produtos dos sistemistas, assim como de três empresas de padronizados testadas, estão dentro do padrão mínimo de desempenho, alinhados com o que pede a nova regulamentação. O mercado pode estar seguro de que nosso produto atende a norma”, diz Noronha, citando os produtos líderes dos sistemistas Alcoa, Belmetal e Hydro, e de fabricantes de esquadrias padronizadas Ebel, JVM e YKK.

Ainda que a indústria do alumínio já tenha soluções, entre elas produtos com desempenho acústico em padrões intermediário e superior, começa agora uma busca por surpreender o mercado.

“Na Belmetal, nossa visão agora é trabalhar no nível superior, com mais opções, para trazer valor agregado ao portfólio. Até o fim do ano, teremos novidades”, diz Luiz Valério Trindade, gerente de marketing da Belmetal.

 

Um dos lançamentos que antecipam esse movimento é o Sistema Contact, da Alcoa. O produto promete eliminar as frestas de todo o perímetro da janela. A inovação está em fazer isso em uma esquadria cuja tipologia é de difícil vedação, a janela “de correr”. “Uma janela de correr com este sistema e vidro laminado de 10 milímetros consegue isolar 31 db, cerca de 10 db a mais do que o modelo tradicional. O segredo é comprimir uma folha contra a outra e contra o marco”, diz Cíntia Figueiredo, coordenadora de novos produtos para construção civil da Alcoa para a América Latina.

Com a norma, as empresas devem oferecer mais informações nos catálogos dos produtos. “A construtora exigirá do fabricante que esse informe a sua classificação quanto ao isolamento acústico”, diz Fabíola, da Afeal. A Alcoa já planeja essa ação: “Vamos trazer mais detalhes sobre o desempenho de cada linha já disponível”, diz Anderson Oba, gerente de marketing de extrudados da Alcoa.

Em relação a produtos concorrentes, a esquadria de alumínio se mostra a mais favorável para a retenção de ruídos, segundo explica Edison Moraes, da ProAcústica. “Os estudos e a experiência mostram, pela lei de massa e pela flexibilidade para trabalhar novos projetos, que o alumínio tem o melhor desempenho acústico. Os fabricantes têm de divulgar isso e conhecer mais a fundo seus produtos nesse quesito”, diz. Fabíola alerta: “Quem ainda não fez, deve fazer ensaios em todas as suas tipologias e sistemas”.

Etiqueta que indica padrão acústico da esquadria só poderá ser removida pelo comprador do imóvel

Mudança 
Para os especialistas, a conquista de mais conforto acústico nos lares brasileiros depende de um aspecto: “Conscientização do consumidor. A grande mudança virá quando ele conhecer seu direito ao silêncio”, defende Moraes, da ProAcústica.

“Quando se sente lesado, o consumidor recorre à Justiça e isso mobiliza a construtora a investir em produtos melhores. Isso já está acontecendo”, acrescenta Moraes, que cita o caso de uma construtora que viu o índice de queixas quanto aos ruídos crescer seis vezes, em apenas um ano, o que a estimulou a adotar novos produtos e métodos construtivos para reter ruídos.

Cíntia, da Alcoa, avalia que “antes, o mercado não estava pronto para esse salto, ainda que a discussão já estivesse em pauta há anos. Mas agora o conforto acústico veio para ficar e, como resultado, impulsionará mais qualidade dos fabricantes”. Godoy, especialista em acústica, concorda: “O assunto vai tomar os jornais e entrar na pauta pública e das construtoras, definitivamente”.

Moraes, da ProAcústica, diz que estudos mostram que alumínio é material que tem melhor desempenho acústico combinado à flexibilidade para inovar nos projetos

Para estimular isso, a PróAcústica e a Afeal acabam de lançar uma etiqueta, à luz do Procel, que mostra ao consumidor o nível de desempenho acústico da esquadria, que varia de A a D. “A etiqueta só pode ser removida pelo cliente, no momento da compra. Ao receber um imóvel caro com isolamento nível C ou D, o cliente vai se sentir incomodado, especialmente se for incompatível com o padrão do apartamento”, diz Edson Fernandes, diretor da Afeal. Para o diretor, isso permitirá que o cliente exija produtos de maior desempenho: “Para gerar isso, é preciso que todos os fabricantes adotem a etiqueta”, defende.

O amadurecimento do mercado nacional também deve reverberar sobre a saúde dos moradores, que sofrem com perdas de audição, estresse e irritação, por conta do ruído perturbador. Na visão de Moraes: “Amor e silêncio é o que falta nas cidades. Pelo menos o silêncio, estamos mais perto de garantir”.

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