Esquadrias de alumínio: a espiral do desempenho

Com perspectivas de crescimento em torno de 7% ao ano, em 2013 e 2014, o setor de esquadrias de alumínio passa por uma fase de vigor, com a chegada de novas empresas nacionais e estrangeiras, atraídas pelo bom desempenho da construção civil, e que devem trazer novas tecnologias em produtos. De acordo com Lucínio Abrantes dos Santos, presidente da Afeal (Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio), a entidade que desde a sua criação, em 1983, pauta sua política setorial na promoção da qualidade, tem participado ativamente da elaboração das normas técnicas, coordenando a criação de novos textos normativos e da revisão da ‘norma mãe’, a NBR 10.821. Além de qualificar a mão de obra, investindo na parceria com o Senai, em cursos como os de Desenho, Instalação e Serralheria. Essa cultura da qualidade também se propagou por vários estados brasileiros, onde a Afeal ofereceu as bases para a criação de regionais. Hoje, são mais de 170 associados e uma intensa relação com os demais elos da cadeia produtiva da construção civil.

 

Quanto aos desafios relativos à sustentabilidade o setor vem se organizando no sentido de ter uma linha de produção mais sustentável com menos impactos no meio ambiente. De acordo com Santos, atendendo ao que estabelece a Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a Afeal orienta seus associados a reciclarem matérias-primas e na prática da logística reversa de insumos, que exigem destinação especial, como o silicone para colagem dos vidros, ou a contratação de empresa especializada na destinação desse tipo de resíduo. Segundo Fernando Rosa, gerente geral da Afeal, a entidade adotou em seu planejamento estratégico, como um de seus pilares, a importância de respeitar os princípios da responsabilidade social, ambiental e organizacional. E tem estimulado seus associados a adotarem práticas sustentáveis. “O setor tem atuado de forma responsável, minimizando os impactos gerados pela nossa atividade, cabendo destacar que a fabricação de esquadrias de alumínio, por sua característica, destina sua sucata para a reciclagem. Outra característica do setor é justamente oferecer tecnologias agregadas aos nossos produtos, que colaboram com a eficiência energética através de geração de energia (ex. fachadas com células fotovoltaicas) e de redução de consumo de energia (ex. fachadas ventiladas e janelas com termo break e vidros especiais)”, destaca.

 

Para debater as questões desse mercado, a Ação Editora, detentora, no Brasil, do título da revista Summa+, importante publicação argentina de arquitetura, reuniu representantes da indústria, arquitetos, consultores e vários especialistas do setor, no dia 4 de março. Os assuntos em pauta foram a Norma de Desempenho (NBR 15.575), a modernização do setor, a qualidade dos produtos, o desempenho das fachadas quanto ao conforto termoacústico e as tendências do mercado. Cerca de 15 especialistas estiveram presentes nessa mesa-redonda para avaliar as transformações do setor e as perspectivas para os próximos anos.

 

Edifícios altos

 

 

Fernando Rosa, gerente geral da Afeal – Cada vez mais os edifícios ficam mais altos, como é o caso do Burj Dubai, nos Emirados Árabes, que tem quase 1 quilômetro de altura. Isso impõe desafios aos fabricantes de fachada. Como atender esses desafios? No Brasil, estamos preparados para isso?

 

Gianfranco Vannucchi, do escritório de arquitetura Königsberger Vannucchi – Acho que no Brasil, especificamente em São Paulo, que é a cidade onde há edifícios de grande altura, temos um problema. Com os problemas de transporte público o que se constrói para cima tem que se construir para baixo (subsolos), devido às exigências da legislação para vagas de estacionamento. Então, enquanto não mudar essa equação fica difícil. Parece que a prefeitura está empenhada em rever essa exigência, pois isso inviabiliza edifícios muito altos. No que diz respeito aos edifícios residenciais o máximo é de 25 a 30 pavimentos, porque as pessoas não se sentem tão bem morando em edifícios demasiadamente altos.

 

Lucínio Abrantes dos Santos, presidente da Afeal – Temos que considerar que cada projeto é único e levar em conta a região, exigências locais, ventos, tudo isso se agrega ao projeto. A indústria nacional está totalmente preparada, um ou outro detalhe requer tecnologia externa. Mas quanto à fabricação estamos preparados para essa tendência de diferenciação dos empreendimentos.

 

Retrofit

 

Rosa – Há vários imóveis antigos nas grandes cidades que necessitam de retrofit. Como o mercado imobiliário vê essa questão e quais são as oportunidades para o mercado de esquadrias?

 

Marcos Velletri, diretor de Insumos e Tecnologia do Secovi-SP – Na verdade, o Secovi vem promovendo eventos para tratar da questão do retrofit. É um mercado promissor, mas existem várias restrições burocráticas. Em São Paulo, os retrofits geralmente são feitos em edifícios do Centro, e ocorrem problemas referentes a tombamento de fachadas, demandando adaptação das esquadrias às fachadas antigas. Há ainda a necessidade de isolamento acústico, pois esses edifícios ficam em zonas de ruído alto. Quanto às esquadrias, não vejo nenhuma dificuldade em utilizar novos conceitos nesses edifícios.

Rosa – O que as entidades precisam fazer para chegar a soluções de retrofit? Temos o projeto de revitalização da Luz, no Centro de São Paulo, que ainda não decolou. O que deve ser feito?

 

Velletri – O Secovi –SP tem acompanhado de perto essa questão. O problema é que os proprietários desses imóveis precisam ser convencidos a investir. E os incentivos até agora não são suficientes para estimulá-los a tomar essa decisão. Também são imóveis com questões de herança, famílias, etc. Talvez seja o caso de desapropriação mesmo.

 

Vannucchi – Eu sou bastante cético com relação retrofits nesses edifícios. Adaptar um prédio residencial para comercial é difícil, por causa dos layouts, vigas, estruturas antigas. Mesmo os edifícios comerciais trazem essas dificuldades diante das exigências atuais de pisos elevados, sistemas de ar condicionado, iluminação, cabeamento, rotas de fuga, enfim, vejo como extremamente complicada a questão. É tão difícil aproveitar essas edificações antigas diante das exigências atuais que acredito que o custo pode ficar mais alto do que construir um novo. Então, não vejo como um grande mercado, apenas pontual.

 

Fernando Simões, gerente de Construção Civil da Divisão de Plásticos da Belmetal – Concordo com o Gianfranco. A maior dificuldade é a parte interna. Já as soluções para fachada são relativamente simples. É possível refazer a fachada dando um novo valor para o imóvel, com novas tecnologias, novos materiais, com caixilhos de maior qualidade tanto na questão acústica como de conforto térmico. Mas vejo como obras pontuais. As regiões da Faria Lima e da Paulista, por exemplo, têm grande potencial para retrofit, já que os terrenos são de alto valor.

 

Santos – Eu penso um pouco diferente e acredito que os retrofits podem ser interessantes no caso de empreendimentos em terrenos valorizados. Atualmente, estamos com o projeto do Sesc 24 de Maio, o antigo prédio da Mesbla, no Centro de São Paulo, em que está sendo realizado um retrofit fabuloso para requalificar o espaço, com oficinas, teatro, instalações esportivas, etc. O governo está atento a esse tipo de renovação. Então, como esses, outros virão e acredito que a tendência é de os órgãos governamentais comprarem esses prédios ou desapropriá-los. A escassez de terrenos também deverá alavancar esse mercado. Para os fabricantes de esquadrias será um segmento de interesse. Na Europa, esse é um mercado bastante relevante. Pode demorar algum tempo, mas vai ser um grande benefício para a cidade.

 

Melhor desempenho

 

José Sabioni de Lima, diretor comercial da Itefal – No mercado de esquadrias o problema é chegar a uma solução adequada, que atenda às necessidades de cada empreendimento. Começamos a ver que há uma preocupação maior com as esquadrias, principalmente nos prédios corporativos. No restante do mercado, principalmente residencial, as janelas atendem ao mínimo estipulado pelas normas. Por essa razão tem acontecido muita substituição de janelas em edifícios residenciais novos. Muitas vezes, os proprietários trocam as esquadrias por outras de melhor desempenho acústico, pois a cidade está cada vez mais barulhenta. O ideal seria conseguir educar o consumidor para saber o que está comprando. Muitas vezes, somos consultados pela comissão de obra de condomínios, e eles não sabem o que devem exigir de uma esquadria e nem como comprar. Acredito que está mais do que na hora de trabalhar além do mínimo exigido pelas normas.

Vannucchi – O mercado comercial é a minoria, no entanto é uma grande vitrine de esquadrias de qualidade. O residencial é muito maior e tem que ser trabalhado de um jeito diferente. O usuário não sabe como exigir. Os edifícios neoclássicos saíram de moda, para sorte de todos nós, pois têm janelas pequenas. A tendência agora são edifícios residenciais com projetos mais contemporâneos com janelas amplas, grandes vãos, pé direito-duplo. Como a questão do ruído aumenta nas grandes cidades, é por essa via que o consumidor vai começar a exigir mais. Pelo menos, agora já estão oferecendo esquadrias com duas folhas de vidro.

 

Edison Moraes, conselheiro da ProAcústica e diretor da Atenuasom – Quem deve ser o maior responsável por essa informação chegar ao usuário final?

 

Vannucchi – Acho que precisamos trabalhar o consumidor. Como é que as pessoas aceitam esquadrias desse jeito? E não estou falando de baixa renda, estou falando de empreendimentos para classe média e até alto padrão. No Sul, há maior exigência por causa do frio. Mas em São Paulo existe aquela situação, não tão é quente, não é tão frio. O que está mudando a situação é o ruído, que não permite mais esquadrias de baixa qualidade, além das tempestades e ventos. Oferecer um vão de janelas maiores que os tradicionais de 1,20m X 1,20m amplia os ambientes num apartamento e se torna um bom argumento de venda.

João Carlos Panzoldo, diretor da Tecnofeal – O consumidor não consegue exigir porque não conhece. E a construtora também não sabe muito e, por isso, recorre ao consultor que faz a especificação levando em conta o local e outros critérios. Mas a construtora não aceita por causa dos custos. Acho que o arquitetos também deveriam exigir que seu projeto seja seguido, compatível com a localização, redução de ruídos, recusando mudanças por parte da construtora para economizar custos. As pessoas que viajam muito conseguem fazer uma comparação, e lembram que no hotel que ficaram perto de um aeroporto não ouviram ruídos.

 

Rede de informações

 

Hosana Pedroso, assessora de comunicação da Afeal – A Afeal mantém duas linhas de ação no que se refere à comunicação. De um lado, sua consultora técnica, engenheira Fabiola Rago, esclarece os textos normativos em vigor nas palestras na sede da associação, em São Paulo, e em outros estados, inclusive voltadas a arquitetos e construtores, em parceria com entidades regionais da construção civil como o Sinduscon. De outro, a Afeal conta com vários meios de divulgação, a começar pelo site (www. afeal.com.br), um verdadeiro portal de informações sobre esquadrias e fachadas de alumínio, que foi ampliado em 2012. O canal ‘Esquadrias de A a Z’ passa a publicar conteúdo ampliado, com textos técnicos, e um número maior de verbetes, ilustrado com imagens em 3D e interativas, além de exibir vídeos. A nova página ‘Serralheria Digital’ oferece exemplos ideais de layouts de fábricas de esquadrias de alumínio padronizadas e especiais.
Voltado ao arquiteto e consumidor final, há o canal ‘Tipologia Certa’, que leva o internauta a um passeio pelos vários ambientes de uma residência, permitindo que ele substitua as esquadrias a partir da biblioteca de tipologias. Será lançada, também, a plataforma de ensino a distância desenvolvida pela Afeal. O Afeal Acontece tem periodicidade até diária, dependendo do volume de informações, dirigida aos associados, entidades parceiras e profissionais de arquitetura e engenharia. Além do Informativo Afeal, criado em 1997, que chegou à 101ª edição em dezembro de 2012, com 8 páginas e tiragem de 9 mil exemplares, com circulação nacional encartado na revista Finestra.

 

Qualidade X custos

 

Velletri – Na verdade, o incorporador em nosso país nunca pôde construir com um custo maior que um determinado limite. E isso aconteceu durante uns 30 anos. Os incorporadores trabalham com base nas leis, normas e dentro do possível, então se o vão mínimo era de 1,20 m X 1,20 m, ele adotava isso. A nossa sociedade civil e técnica está evoluindo e nos últimos quatro anos isso vem mudando. Temos de olhar daqui para frente. Com a NBR 15.575 terá de haver mais atenção a essas questões. As construtoras vão procurar diferenciais e algumas já saíram na frente e já trabalham com esquadrias com bom isolamento acústico e térmico. No Minha Casa Minha Vida, por exemplo, existe um limite, mas dá para chegar à melhor solução possível dentro do orçamento.

 

Moraes – Sem dúvida não dá para generalizar, mas acredito que há uma miopia empresarial. Como fabricante de janela acústica, tenho visto casos de prédios em que chegamos a trocar 70% das esquadrias. Eu fico pensando por que não colocar uma janela melhor se o usuário está disposto a pagar? E esse é o desafio: como oferecer maior valor agregado como faz a indústria automobilística, que pode nos ensinar a oferecer boas janelas como maior valor agregado.

 

Velletri – Eu acho que tudo isso depende muito da vivência técnica. Acho que o setor de esquadrias deveria fazer um trabalho forte junto a quem especifica, a quem monta, para poder explicar o porquê de uma solução melhor. Porém, tem construtora que faz algumas poucas obras e some. O nosso mercado é assim, tem muitos curiosos que entram no setor. É raro acontecer coisas com empresas bem estruturadas. No Secovi conscientizamos o síndico, por exemplo, temos uma manhã só para o síndico e nesse próximo evento vamos falar de manutenção, isso é muito importante. Na Norma de Manutenção, promulgada recentemente, existe a obrigação de ter um plano de manutenção anual para qualquer edifício. Estamos caminhando, conversamos muito com as associações de projeto, fizemos um trabalho grande que foi o lançamento dos manuais de escopo, que orientam com relação à contratação desses serviços.

 

Panzoldo – Tenho visto poucas construtoras se preocuparem com o item caixilhos e conforto do consumidor. Por outro lado, algumas utilizam como ferramenta de marketing, produtos de maior valor agregado. Eu já tive vários casos em que especifiquei produtos de maior qualidade, que custavam R$ 300, em vez de R$ 100, e a construtora constatou que seus clientes ficaram supersatisfeitos. O incorporador deve analisar bem esse item. Em contrapartida, vejo apartamentos de alto padrão com janelas de baixa qualidade. Pode ser uma necessidade do orçamento, mas será que vai trazer um retorno adequado para o morador? Comprar um apartamento não é barato, será que um item importante como esse não pode ser mais caro?

 

Santos – A esquadria representa entre 5% e 6% do custo total do empreendimento e pode comprometer a qualidade do edifício. É preciso pensar nisso, pois hoje com a abundância de financiamento e prazo longos fica mais fácil utilizar esquadrias de maior qualidade.

 

Vannucchi – Trocar um piso é bem mais fácil que uma esquadria e fica por anos e anos convivendo com ela. O incorporador poderia privilegiar menos um revestimento, e investir em esquadrias melhores. Ao mesmo tempo, vejo que o consumidor tem reclamado cada vez mais por via das redes sociais, que são uma praga para os construtores.
Rosa– Os construtores podem entregar a unidade sem o piso, porque sabem que o consumidor vai trocar. Mas não podem entregar sem janela. Portanto, realmente é preciso escolher bem.

 

Selo de acústica

 

Domingos Moreira Cordeiro, diretor da Adalume – E nós estamos falando de São Paulo. No restante do País é muito pior. Mesmo com as normas, estamos atendendo o mínimo, mas ainda aquém da qualidade que pretendemos. O consumidor nem sabe que existem produtos melhores. Por isso, acho fundamental o trabalho que a Afeal está fazendo, com pontuação de desempenho tanto acústico como térmico nas esquadrias. Esse selo é similar ao do Procel, que classifica os produtos por consumo de energia. Isso acaba educando o consumidor e o estimula a cobrar. É um processo lento, feito de iniciativas, mas tem que se começar, e abranger todos os envolvidos desde o arquiteto até o incorporador e o consumidor final. Quando ele percebe que tem um desempenho maior ele paga.

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